A segunda mesa do Ciclo de Debates organizado pelo projeto TECER problematizou a utilização do roteiro nas produções atuais. Abaixo, disponibilizamos o texto de Eduardo Jorge, um dos convidados da mesa, produzido para enriquecer essa discussão.
Roteiro, ainda.
por Eduardo Jorge
O ponto de partida para esta conversa é uma proposição, melhor, algumas variantes desta proposição para pensar o roteiro ou que tipo de problema se pode armar em um território que dialoga com os limites do literário, isto é, se se quer pensar a palavra como fantasma da imagem. Para trazer ainda uma imagem, trago ainda a imagem do branco, da leitura cega da câmera, examinando a luz, em geral, motivada pela celulose (a página do verso do roteiro?). A proposta seria pensar o roteiro ainda como uma forma formante e pensar numa coreografia que desestruturasse seu corpo, baseado em alguns tópicos. Apontar o roteiro como território levanta uma questão do que está neste território, no que há nele de comum para o encontro, para a comunicação da equipe, para a convergência de interesses estéticos, políticos e econômicos. Portanto, a partir disso e contra isso, o roteiro arma alguns problemas. Daí surgem cinco esboços para uma conversa:
Um roteiro pode marcar uma origem, mas uma origem como torvelinho.
O primeiro problema a ser posto: o da cronologia. Como pensar o tempo da escrita do roteiro com o tempo da filmagem? Ou, ainda como pensar cada um destes tempos como uma escrita e que, com a constituição das duas não criamos uma redundância. Esta redundância, de ordem estrutural, não seria uma armadilha? Seria o roteiro linhas pontilhadas aguardando ser cobertas? Daí a possibilidade de desvio, na hora de contornar, gerar outros tempos, inscrever o que resta deste roteiro na ordem de uma heterocronia, num gesto infantil de se recusar a cobrir a imagem.
Este gesto de seguir a linha pontilhada elabora novos pontos, porque o torvelinho é assim, não deixa a origem do ponto fixa. Traz novas questões no mesmo movimento circular. Inclusive a necessidade de se pensar outros tempos para o roteiro. Daí a pergunta: Que tipo de outros embates e/ou temporalidades pode-se provocar no estado roteiro que não apenas a estruturação das experiências e dos desejos?
Um roteiro pode marcar um cansaço de sua própria história.
O segundo problema que se desdobra do primeiro: a mediação, a necessidade de estruturar uma ideia para que ela possa enfim, organizar o mundo ou minimamente fazer o seu recorte. Cobrir a imagem cansa porque repetir cansa. Não seriam as imagens e os sons que escreverão realmente o filme? O roteiro está sob o risco do real, e, deste modo, seu maior mérito e maior problema talvez seja a sua constituição enquanto projeto mediúnico entre mundos. A finalidade maior do roteiro seria sua constituição como projeto (pro-jetar), antes de se lançar em campo. Seria ele uma mediação da potência ao ato. Precisa-se desta mediação?
Um roteiro pode ser um campo de profecias.
O terceiro ponto: precisamos de novas imagens? com a cultura baseada na imagem, o mundo ainda continua inundado com a verborragia, pois a mais simples das palavras (o mais banal e transparente dos motivos do conhecimento) recebe forma visual suficiente (T. J. Clark). A pergunta diante desta questão é: “porque escrever?”, e esta questão se transforma: “como escrever?”. Afinal, não seria a imagem aquilo que me faz imaginar? Que cria novas situações de deriva para o olhar que, inclusive, apontam para um porvir de outras imagens?
Esta inquietação se relaciona com a quinta: no que diz respeito ao uso do documento como delírio, inserindo-o na ordem do acontecimento, ou ainda pensar o que Georges Didi-Huberman chamou de “devir documento”, em “A emoção não diz eu”: “os artistas não apenas utilizam os documentos da atualidade, com o que se mantém “frente à história”, mas também produzem inteiramente, com o que não apenas contemplam o acontecimento, e sim intervêm, em contato com ele.” É nesse aspecto de intervir em pleno acontecimento que a imagem se realiza como profecia e que a imagem se torna prospectiva em sua poética, isto é, seu fazer.
O roteiro como princípio de escavação.
O roteiro é/pode ser a chance de escavar um tema (no tema entra o próprio cinema) e esse movimento de escavação é sem fim, ou seja, a própria escrita se inviabiliza em meio ao seu acúmulo. Frente a isto, poderia se pensar que do ato de escavar com o roteiro fica o gesto: o gesto de escavar. Restando o gesto, pode-se escavar a imagem inclusive sem palavras. Neste aspecto, a imagem pode não ser apenas uma ilustração de uma palavra, ela seria gesto.
Como o roteiro mede nossa capacidade de lidar com o arquivo, com o documento?
“Nunca há um documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie”. Ainda retomando a tese VII de Sobre o conceito de história, de Walter Benjamin. Como pensar o documento em uma perspectiva de arquivo, em uma imagem prospectiva? Como mobilizar esse arquivo de modo arqueológico, anacrônico e prospectivo no campo das imagens? A imagem de hoje já é arquivo. E isso instaura um paradoxo, ao mesmo tempo em que nasce morta e é dela que se tira o movimento de vida. Organizar o mundo das imagens: precisamos de um roteiro para isso? Ou, ainda, como tornar de modo mais intrínseco, em uma luta de experiências, documento e arquivo no devir da imagem, seja documentário, ficção, poema. Enfim, o roteiro pode muito bem ser um caderno etnográfico que, ao invés de ser apenas o elemento estruturante, monta heterocronias da imagem.
Referências:
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1996. pp. 222-232.
DIDI-HUBERMAN, Georges. La emoción no dice “yo”. La política de las imagénes (Sobre Alfredo Jaar). Chile: Metales Pesados, 2006. pp. 39-67.
CLARK. T. J. Modernismo, pós-modernismo, vapor. Revista Ars. Número 8. São Paulo: USP, Disponível em http://www.cap.eca.usp.br/ars8/clark.pdf